Manhã de Abril

29-03-2026

A uma cerejeira em flor _ Eugénio de Andrade

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração duma cereja.


É bem recente a minha descoberta dos poemas de Eugénio de Andrade, encanta-me como muitos dos seus poemas relembram-me que a felicidade vem da entrega total ao momento presente, de sentir o tempo, de arder das folhas à raiz.

A palavra Abril, deriva do latim "aperire" que significa abrir, referindo-se ao abrir das flores que normalmente acontece nesta altura do ano, mas (e porque não?!) aproveitar este mês para me abrir à experiencia de acordar - despertar do piloto automático em que muitas vezes vivo - e ser!

A primavera é uma estação que também relembra-me o poder da entrega. Numa pequena caminhada pelo parque, a luz, as cores, os cheiros, convidam-me a abrir os braços - e receber este instante, ser livre para acolher "o que quer que seja", e nessa abertura sinto-me a florir.

Reflito como é curioso que, para abrir os braços e receber, é necessário largar; as mãos que seguram não podem acolher! E quantos momentos perco porque me prendo a ideias, expectativas, memórias, sonhos de outras estações. 

Fica a questão, o que é que, se largasse hoje, deixaria os meus braços leves para sentir o vento de Abril, para ser a brancura de uma cerejeira? 

Rita