Ser autêntico!

"Quem me dera ter tido a coragem de viver uma vida fiel a mim próprio,
e não a vida que os outros esperavam de mim" Bronnie Ware
Bronnie Ware, escritora australiana, escreveu em 2012 um livro sobre as aprendizagens que retirou dos anos em que trabalhou como cuidadora de pessoas em final de vida. A leitura do seu livro "Os cinco maiores arrependimentos antes de morrer" torna em mim ainda mais viva a consciencialização de que não estarei aqui para sempre, que também um dia, como diz Valter Hugo Mãe, eu irei para a morte ("sinto que a morte é um lugar onde ainda vou chegar…"). Essa percepção da minha finitude, não me provoca angústia ou uma urgência de viver sem consciência e sem consequência, mas faz-me despertar para um olhar diferente para esta existência, e sem a certeza se um dia poderei voltar, pergunto-me como posso tornar a minha passagem por aqui mais preenchida, realizada e feliz?
Dos oito anos em que trabalhou como cuidadora de cuidados paliativos, Bronnie, revela que o arrependimento que mais ouviu foi: "Quem me dera ter tido a coragem de viver uma vida fiel a mim próprio, e não a vida que os outros esperavam de mim!" A coragem de sermos autênticos!
Saboreio as palavras de Tolentino de Mendonça de que Deus não deseja vidas repetidas, mas sim que cada pessoa assuma a sua singularidade como um "milagre" e que viver é a arte de se tornar quem realmente se é.
Pesquisando um pouco sobre autenticidade, descubro que a palavra viaja do grego para o português sempre com um significado de verdade pessoal. Derivando assim das palavras Autos ("si mesmo" ou "por si próprio) + Hentes (aquele que faz), descrevia já na altura alguém que agia pela sua própria autoridade — um "mestre de si". A palavra entrou no latim como authentĭcus, mantendo o sentido de algo "verdadeiro", "legítimo" ou "autorizado". E chega até à língua portuguesa através do francês antigo autentique para designar o que é genuíno, não é imitação e possui autoridade. Ou seja, ser autêntico etimologicamente significa ser o "autor de si mesmo", agindo a partir da sua própria essência e autoridade interior.
Sei que somos fruto da sociedade, cultura e contexto em que nascemos e vivemos, já José Ortega Y Gasset dizia: "o homem é ele e as suas circunstâncias", mas também sinto que muitas vezes esta sociedade tenta padronizar e compele a que me encolha ou me molde para caber numa visão de vida e valores onde não encaixo. Sei também que por desilusões, mágoas e pela necessidade de ser amada, aceite, de pertencer, me vou negando, construindo máscaras, que com a passagem do tempo se enraízam em mim, e às tantas já nem sei quem realmente sou.
Fevereiro traz o Carnaval, altura em que pomos as máscaras, ou será que apenas enfeitamos as máscaras que nunca tiramos?
Brené Brown define autenticidade como a prática diária e corajosa de deixarmos de lado quem achamos que deveríamos ser e abraçarmos quem realmente somos, permitindo que o nosso verdadeiro eu, frágil e imperfeito seja visto, mesmo quando isso é desconfortável. Exige vulnerabilidade para nos mostrarmos com honestidade, estabelecermos limites e escolhermos a autoaceitação em vez de nos encaixarmos ou agradarmos os outros. Não é algo passivo, algo superficial, algo preguiçoso tipo "sou assim e pronto!", não é uma característica estática. Somos uma construção constante, volto a Tolentino de Mendonça "Nós somos sempre novos, nós somos sempre inéditos. Não somos apenas a continuação". É uma prática regular de desnudamento, de retirar camadas, de enfrentarmos o incómodo de conhecer e cuidarmos das feridas que criam essas máscaras que tratamos por "Eu". É um conjunto de escolhas diárias para viver de acordo com os nossos valores, em vez de nos acomodarmos ao conhecido, ao socialmente aceite. É o deixar cair de uma visão irreal de que devíamos alcançar a perfeição, livres do erro, da falha, da confusão, e abraçar a nossa complexa e incongruente existência por vezes caótica, suja, feia.
Sei que sempre haverá máscaras, sempre haverá momentos em que me irei encolher para caber em sítios onde acho que é suposto estar, em que me irei negar por medo de não ser amada, mas no desconchego desse espaço apertado que haja a coragem de sair, me reencontrar e escolher pertencer a mim mesma.
Rita
