Deixa estar; deixa ir
"Temos duas vidas, e a segunda começa quando percebemos que só temos uma" Provérbio Chinês

Outubro. A tarde está quente e soalheira. Aproveito a oportunidade de um tempo livre para me refugiar na calorosa receção das grandes árvores. Tudo aqui é paz! Dou por mim a olhar para as copas das árvores, sempre maravilhada com os raios de sol que espreitam por entre as folhagens douradas, que dançam ao ritmo de um vento calmo.
Tenho pensado muito na frase "deixar estar!". Não faz muito tempo, ouvi a história de dois monges a quem o mestre disse que, se chegassem ao topo de uma montanha antes do amanhecer, veriam o Buddha. Ao longo da caminhada há desafios e dúvidas, mas a conclusão que se retira é a de que nós não temos de chegar a lado algum. O caminho é realmente aprender a viver de coração presente e aberto. Este é o topo da montanha, o que procuramos está neste precioso momento! Só temos este precioso momento e, quando queremos algo mais deste momento, não estamos em casa, não estamos aqui.
Quando o vento sopra mais forte, a árvore solta as pequenas folhas e enfeita a paisagem com uma chuva de tons quentes. Tenho pensado muito na frase "deixar ir". Para deixar estar, tenho de deixar ir. Deixar ir a nossa necessidade de controlo, as nossas expectativas, o nosso passado. Não falo do controlo, do planeamento, dos desejos e das expectativas necessários para o nosso bem-estar e para a nossa saúde. Temos de ter um trabalho, um teto, alguma segurança, condições básicas para a nossa saúde, oportunidades de socialização, algo que requer planeamento, controlo e regras. Contudo, arrisco-me a pôr no plural: agarramo-nos a muito mais do que aquilo que nos garante a sobrevivência e o bem-estar. Queremos controlar o tempo, os outros, os resultados dos nossos planos, a satisfação dos nossos desejos, a extinção dos nossos medos e até, arriscar-me-ia a dizer, a morte. Falo de deixar cair o que nos impede de estar aqui, o que nos bloqueia de uma presença aberta e consciente: hábitos, medos, expectativas, a tendência para colocar em algo ou no outro a responsabilidade pela nossa felicidade. Tara Brach lança a pergunta:
"O que está entre mim e este precioso momento? O que me impede de estar aqui, consciente e de mente e coração abertos?"
Deixar ir não é necessariamente uma ação, algo que temos de fazer. É mais uma escolha de não fazer, de deixar soltar a contração que me bloqueia de estar no aqui e agora, como soltar um punho fechado, relaxando a mão.
Continuo aqui, no abraço caloroso das grandes árvores. O sol espreita por entre as folhagens douradas e as folhas dançam suavemente ao vento. Tudo é paz! Quero tanto agarrar este momento.
Acolho as palavras de Ajahn Chah:
"Se deixares ir um pouco, encontrarás um pouco de paz.
Se deixares ir muito, encontrarás muita paz.
Se deixares ir completamente, conhecerás a paz e a liberdade plenas."
Rita
