Mondar

20-04-2026

Lembro-me da primeira vez que plantei cenouras. Como as sementes são minúsculas, depois de preparar a terra, lancei-as ao solo com um gesto livre, tentando apenas que não se concentrassem demasiado num só lugar. É maravilhoso acompanhar o que nasce desse gesto; observar o desenvolvimento da vida recorda-me o milagre e o princípio inteligente por trás de toda a existência.

Em pouco tempo, o retângulo de terra estava farto, de um verde vibrante. Orgulhosa daquela abundância, foi com desilusão que recebi o conselho: "Tens de as mondar".

Mondar é a prática de desbastar. No caso das cenouras, é o processo de selecionar e retirar os rebentos que nasceram em excesso para garantir que as raízes que permanecem tenham luz, espaço e nutrientes para crescerem largas, direitas e saudáveis. Remover plantas jovens e cheias de potencial pareceu-me um gesto contraintuitivo. Parece errado questionar a abundância.

Recentemente, um podcast trouxe-me esta memória de volta. Falava sobre como o jardineiro sabe algo que nós muitas vezes esquecemos: "Não é o número de raízes que faz uma boa colheita, mas o espaço entre elas".

O risco de ignorarmos esta verdade é a profusão. No campo — e na vida — "muito" nem sempre significa "melhor". Quando nascem demasiadas plantas no mesmo espaço, elas competem entre si e o resultado são raízes raquíticas. Às vezes, a planta foca-se tanto em criar uma folhagem exuberante que se "esquece" de dar fruto. O excesso de folhas impede o ar de circular, convidando pragas. Até as árvores de fruto, quando carregadas em demasia, produzem frutos pequenos, sem sabor, e correm o risco de partir os próprios ramos sob o peso do excesso.

Reflito sobre a minha tendência em abraçar todas as coisas boas que a vida apresenta. Digo "sim" a tanto que, às vezes, fico sem tempo para o essencial. A dificuldade é que, isoladamente, cada "sim" parece uma excelente decisão: um novo projeto, um curso estimulante, um jantar com amigos, uma reunião de família. São impulsos nobres. Contudo, quando digo "sim" a tudo o que parece uma excelente oportunidade, esse "sim" perde substância. Ele dilui-se e dispersa-se. Acabo por estar presente em todo o lado, sem nunca estar inteira em lugar nenhum.

O efeito dessa profusão é um cansaço profundo e aquele sentimento vago de que algo me escapa no meio da correria. O que escapa? A profundidade.

Existe uma diferença abismal entre uma vida cheia e uma vida preenchida. Uma vida cheia está saturada; é um inventário de ocupações. Já uma vida preenchida é aquela em que o tempo é habitado, sentido e provado, mesmo nos momentos mais ordinários. Enquanto a primeira se mede pela quantidade, a segunda define-se pela presença e pela qualidade.

É aqui que a sabedoria do jardineiro se torna essencial: não é fazer tudo crescer, mas saber o que pode crescer ali, com aquele solo e aquela luz. Mondar não é retirar o mau para deixar o bom. É remover o que está bom porque o espaço está demasiado preenchido. É escolher entre o bom e o bom; entre duas raízes igualmente saudáveis e desejáveis.

Não é um ato de sacrifício, mas de clareza. É a confiança de que as raízes que ficam terão espaço para a excelência, enquanto as removidas seguirão o seu destino — seja o da compostagem ou o de serem replantadas noutro solo, noutro momento.

Nesse meu primeiro ano, a monda foi tímida. Tentei replantar as raízes que retirei, mas como não vingaram, não tive coragem de tirar mais. A colheita foi de cenouras pequeninas e tortas. Mas novas primaveras vieram e virão, e com elas a oportunidade de mondar com mais eficácia, para viver de forma mais leve, inteira e preenchida.

Rita


Imagem retirada de: https://www.gardenersworld.com

Podcast que inspirou este texto: Life wisdom - By words of taoism